Fazendeiro e negociante, capitão da Guarda Nacional, batizado em Andrelândia, MG, é considerado o fundador de São José do Rio Preto. Ele construiu a primeira casa de sapé que deu origem à formação da cidade, na altura de onde hoje está a esquina das ruas Voluntários de São Paulo e Tiradentes. Num documento da Câmara Municipal de Casa Branca, SP, com data de 1844, enviado ao presidente da Província de São Paulo, marechal-de-campo Manoel da Fonseca Lima e Silva, João Bernardino aparece como primeiro alferes do Batalhão da Guarda Nacional da cidade. Um ano antes, em 1843, ele se casou em São João Del Rey, MG, com Mariana Ignácia Ferreira, com quem teve os filhos Canuto Bernardino, Joaquim Mariano, José Mariano, Genoveva e Mariana. Em 1852, ele e parte da família emigraram para o “sertão de Araraquara” e estabeleceram-se às margens do rio Preto, entre os córregos Canela e Borá. Em 1867, construiu a primeira casa de alvenaria com esteios de aroeira e cobertura de telhas. João Bernardino atuava como negociante e montou um dos primeiros armazéns da cidade; era dono de várias fazendas na redondeza. Nomeado em 27 de dezembro de 1873 pelo governo provincial membro da Comissão Censitária de 1874 para elaborar o censo da região de São José do Rio Preto.
Apesar de ter sido nomeado apenas em 1867, desempenhou as funções de subdelegado de 1855 até 1894, segundo Carlos Rodrigues Nogueira. Todavia, há uma carta de punho próprio, com data de 19/12/1889, dirigida ao governador de São Paulo, Prudente de Moraes. Nesta carta, João Bernardino reclamava que fora preso em 1886, acusado de crime que não cometeu, e que passara dezenove meses na cadeia em Jaboticabal, tempo que levou para provar a sua inocência. Durante o período da prisão, com sua fazenda e criações abandonadas, muita coisa de sua propriedade fora usurpada. Ele nominou, por exemplo, Flávio João Frosino, que ainda em 1889 tinha em seu poder oito cabeças de gado tiradas da sua fazenda enquanto esteve preso. João Bernardino disse na sua carta que fez queixa “ao subdelegado desta freguesia, Joaquim Nicolau Rodrigues da Gama”, que só teria despachado a queixa dois meses depois. Joaquim Nicolau Rodrigues da Gama não figura na relação de subdelegados e delegados publicada no livro de Carlos Nogueira em 1945. A prisão e a carta de João Bernardino atestaram que em 1886 o subdelegado era outro que não ele. Aliás, Leonardo Gomes apresentou uma relação de subdelegados que cobriu o período de 1867 a 1891 e nela figuram como subdelegados João Bernardino, o seu irmão Manoel Mendes de Seixas, Joaquim Nicolau Rodrigues da Gama, José Batista da Rocha, João Dulcídio Pereira de Mesquita, Basílio Rattes, Joaquim Alves Ferreira Pinto e novamente João Bernardino. As datas dos documentos históricos enevoam ainda mais a obscuridade da história nascente da cidade. Consta que oficialmente João Bernardino só foi nomeado subdelegado em 1867, porém há um ofício assinado por ele, com data de 1/12/1865, dirigido ao presidente da Província, João da Silva Carrão, informando que “nada ocorreu neste passado mez de novembro”. No ano seguinte, em 4/4/1866, ele encaminhou ao governo ofício sobre a morte do fazendeiro João Corrêa Nereu, barbaramente assassinado pelo seu escravo conhecido por Ignacio Criolo, no dia 19 de março. Ainda segundo Leonardo Gomes, João Bernardino e sua mulher, Mariana Ignacia, foram presos e levados a Jaboticabal a cavalo, sob forte escolta policial, em março de 1886. Gomes narra que Avelina Diniz nasceu em 13/11/1885, mas que o batizado só fora realizado em março do ano seguinte, com um grande churrasco. Como as relações entre João Bernardino e o subdelegado major José Soares Sotero de Castilho, que era seu parente, não iam bem, alguns “agregados” da família decidiram dar uma surra no major. E deram. O subdelegado foi a Jaboticabal e voltou com reforço policial suficiente para prender o patrão dos seus agressores. Como vingança, José Soares queria levá-los nus sobre as montarias (João Bernardino e sua mulher, Mariana) mas foi impedido pelo sacerdote José Bento da Costa. Vale observar que José Soares não figurou na relação de subdelegados elaborada por Leonardo Gomes; também deve-se observar que o sacerdote José Bento da Costa e João Bernardino eram inimigos e que a atitude do sacerdote em impedir o abuso de autoridade do subdelegado José Soares foi um ato de humanidade. A história não revela muito da vida particular do fundador. Leonardo Gomes relatou no seu livro as desavenças entre João Bernardino e o sacerdote José Bento da Costa. O principal foco de desentendimento entre ambos eram os preços cobrados pelo sacerdote para os serviços religiosos. Tanto que no dia 19/1/1891, na função de subdelegado, João Bernardino escreveu ao presidente da Província, Jorge Tibiriçá, uma carta denunciando os preços cobrados pelo sacerdote.
O historiador e escritor Basileu Toledo França colheu em 1952 depoimento de João Antônio Alves de Moraes, mais conhecido como João Moura, que trabalhou durante muitos anos na fazenda do fundador. Segundo o depoimento, transcrito na Revista Centenário, João Bernardino tinha mais ou menos 20 escravos e tivera quatro filhos ilegítimos com a escrava chamada “Mariana, a desguelada”, chamados Cândido, Marcolino, Fidélis e Daniel. Nesta entrevista, João Moura informa que os presos feitos pelo subdelegado João Bernardino eram amarrados a uma macaúba torta, perto da Capela, e depois levados a Jaboticabal. Dona Avelina Diniz, neta do fundador, apresentou seu avô como um homem bom, tranqüilo e “amansador de bugres”. Bugre é um nome depreciativo que se dava ao índio no Brasil, mas também valia para classificar o índio não civilizado e feroz, principalmente os de origem tapuia [antigos moradores destas paragens antes da chegada dos pioneiros].
João Bernardino esteve presente em todos os movimentos políticos da cidade, desde a sua fundação em 19/3/1852, até a criação da Comarca, em 5/10/1904. Ele foi um dos primeiros fazendeiros a libertar seus escravos com a assinatura da abolição pela princesa Isabel. Apesar de ser monarquista, João Bernardino não criou resistência ao movimento encabeçado pelo republicano e abolicionista Pedro do Amaral Campos para conquistar a emancipação política de Rio Preto; ao contrário, aliou-se a ele nesta batalha. No dia 20/6/1891 ele assinou, junto com Pedro Amaral, José Francisco de Oliveira, Basílio Rattes e João Dulcídio Pereira de Mesquita, uma mensagem de congratulações ao primeiro governo republicano do Estado. Na primeira eleição da cidade, em 29/10/1894, ele tentou ser vereador, mas obteve apenas dois votos. Porém, figurou como suplente e assumiu a cadeira por uma sessão, no dia 4/2/1895, para substituir uma falta de Luiz Pinto de Moraes. A atuação política de João Bernardino com a emancipação do Município foi invejável. Com mais de 70 anos, ele teve forças para se candidatar e organizar eleições. Em 1894, aos 75 anos, por exemplo, ele fazia parte da 2ª Seção Eleitoral, juntamente com Pedro do Amaral Campos, Antônio Custódio Braga, Antônio Martins de Oliveira e Amâncio José Carlos. Ele continuou compondo a mesa da 2ª Seção nas eleições de 1895 e 1896. Em 30/1/1899, integrou a 4ª Secção Eleitoral. Em 30/7/1895, com 76 anos, foi eleito segundo juiz de Paz com 371 votos, voltando a disputar o cargo em 30/10/1898 já com 79 anos. Foi um dos fundadores da loja maçônica Cosmos em 7/2/1899, ao lado de Adolpho Guimarães Corrêa, Ezequiel Guimarães Corrêa, Manoel Leão e Benedicto Tavares da Silva Lisboa, ocupando o cargo de 1899 a 1900.
A edição número 190, de 28 de abril de 1907, do jornal O Porvir, registrou o falecimento de João Bernardino, na segunda página: “Depois de longos, penosos soffrimentos, falleceu ante-hontem, em sua fazenda da Alegria — o venerando sr. cap. João Bernardino de Seixas Ribeiro. Era um dos mais antigos habitantes desta cidade — talvez o último representante desses ousados fundadores de Rio Preto, que mais tarde auxiliados pelo padre José Bento da Costa, pelo major Soares e outros conseguiram preparar os fundamentos da prospera comarca de hoje. O cap. João Bernardino descendia de excellente família mineira, tendo nascido em Livramento do Ayuoroca, no anno de 1819. Falleceu aos 88 anos de idade, conservando — até a ultima vez em que o vimos — perfeitas as suas faculdades mentaes. Como amigo que éramos do finado associamo-nos sinceramente ao sentimento de sua família a quem apresentamos pezares.”
Essa nota de falecimento de O Porvir corrige algumas distorções históricas a respeito de João Bernardino. A primeira delas é a de que teria falecido com 100 anos da idade e senil. O autor da nota diz que esteve com o fundador dias antes de sua morte e que ele estava lúcido, conservando perfeitas suas faculdades mentais. A nota esclarece também o local de nascimento de João Bernardino. Pelo menos oito cidades mineiras eram apontadas como seu local de nascimento. Livramento do Aiuruoca se chama atualmente Liberdade e é uma pequena cidade fundada na primeira metade do século 18, no alto da Serra da Mantiqueira e cortada pelo rio Grande, que em 1819 era um distrito de Aiuruoca. Foi elevada a condição de município em 1938, quando teve seu nome trocado para Liberdade. Em 17/10/1950 a Câmara Municipal de São José do Rio Preto aprovou projeto do vereador Alberto Andaló para mandar erigir um busto em homenagem a João Bernardino, a ser colocado na Praça Rui Barbosa. Este busto está desaparecido há vários anos. O quarteirão onde está instalada a EEPSG Cardeal Leme, entre as ruas Voluntários de São Paulo, Mirassol, Bernardino de Campos e Independência leva o nome de Praça João Bernardino de Seixas Ribeiro. Ele também dá nome à avenida que separa os bairros Congonhas e Canaã (conhecida também como avenida Piedade/Aeroporto), ligando a Avenida dos Estudantes à Avenida Ernani Pires Domingues.
Local de nascimento: Liberdade-MG
Data de nascimento: 24/02/1819
Local de falecimento: São José do Rio Preto-SP
Data de falecimento: 26/4/1907
Fontes: Rio Preto – Gente que Ajudou a Fazer Uma Grande Cidade, L. Gomes, 1975; Dicionário Rio-pretense, L. Arantes, 1997 e 2002, Quem Faz História em São José do Rio Preto, L. Arantes, 2002; São José do Rio Preto, Onde Os Sonhos Acontecem, L. Arantes, 2013.