
Três locomotivas da EFA em Rio Preto, em fotografia de Theodoro Demonte, publicada no Álbum Ilustrado da Comarca de Rio Preto, em 1929, na página 462
No dia 21 de janeiro de 1912, chegava a Rio Preto a ponta dos trilhos da Estrada de Ferro Araraquarense – EFA. Os trabalhadores foram recebidos com um lanche, oferecido pela Liga Operária Internacional, que formou uma comissão integrada por Paulo Bongiorno, Vírgilio Bonvino e J. Dumas para recepcioná-los, sob os acordes da banda musical Lira Riopretense. Houve discurso do advogado e vereador João Odorico da Cunha Glória, do jornalista e professor José Palma, que era diretor da Liga Operária e do jornal O Poder Moderador, e do engenheiro da estrada, João Caetano. O pessoal “superior” da estrada ganhou um banquete no Hotel Luso-Brasileiro. José Palma, que era militante socialista, entregou ao maquinista Benedicto Vieira uma medalha de ouro, com corrente, em reconhecimento popular.
Mas a inauguração oficial só aconteceu seis meses mais tarde em 9 de junho de 1912. Foi o tempo que se gastou para construir a estação. Neste dia, a banda Lira Riopretense começou a festa ainda com sol claro, na parte da tarde. O trem inaugural, que era previsto para chegar à estação às 20 horas, só chegou às 23h20. O atraso, de mais de três horas, não desanimou os moradores de Rio Preto que aguardavam na estação. As autoridades, que vieram no trem, foram saudadas por discursos de Mário Cunha e Rosita de Almeida. Pouco depois da meia-noite, teve início o banquete organizado pela Câmara Municipal, na própria Estação, com cem talheres. O prefeito Adolpho Guimarães Corrêa, o fundador da Estrada de Ferro Araraquarense, Carlos Magalhães, e o seu presidente, Álvaro de Menezes, mais o secretário da Agricultura, Januário dos Santos Nova, encabeçaram os comeres. Na comitiva do trem inaugural vieram também, para a festa, o deputado federal Marcolino Barreto, o deputado estadual Elias da Rocha Barros, os prefeitos Bento de Abreu Sampaio, de Araraquara, e Leão Pio de Freitas, de Matão, e jornalistas de São Paulo, Campinas, Araraquara, Jaboticabal e Taquaritinga. Depois do banquete, foi realizado um baile de gala no Éden Parque, com duzentos convidados.
Ainda em 1912, o plano era estender os trilhos até Cuiabá. Fazia quatro anos que o governo estadual havia autorizado o prolongamento até Rio Preto, partindo da estação de Fernando Prestes, na altura do km 117.
Mas em 30 de março de 1916, o decreto estadual 2.652 incorporou a EFA ao patrimônio da São Paulo Northern Railroad Company e, em 1918, a estrada passou se chamar Estrada de Ferro São Paulo Norte. Sob a presidência do advogado francês Paul Deleuze, a empresa São Paulo Northern Railroad Company, fundada nos Estados Unidos, sucateou a ferrovia, cujos trilhos ficaram paralisados em Rio Preto. Em 1919, o governo estadual desapropriou a ferrovia, tirando do comando de Deleuze.
Em 1933, já com o nome de Estrada de Ferro Araraquara, a EFA deu prosseguimento aos trilhos que estiveram parados em Rio Preto, o que emprestou para a cidade a fama de “ponta dos trilhos”. Essa paralisação beneficiou a economia da cidade porque toda produção das cidades e vilarejos vizinhos, após Rio Preto, tinha que ser transportada até a estação para carregamento. Todos os viajantes eram obrigados a vir a Rio Preto para embarque e desembarque. Durante vinte e um anos, a cidade foi o ponto de convergência regional por causa da “ponta dos trilhos”.
O historiador Pierre Monbeig assinala na página 348, do seu livro “Pioneiros e Fazendeiros de São Paulo”:
“Já foi frequentemente assinalada a importância, no Brasil, das cidades que se chamam ‘boca do sertão’, as quais se situam na orla das zonas em que começa a penetrar o povoamento, bem como das cidades denominadas ‘pontas de trilhos’, terminais provisórios das ferrovias. Ambas as situações são evidentemente privilegiadas.”
Na página seguinte, Monbeig diz:
“Em Rio Preto, remontaria o primeiro estabelecimento a 1842, mas foram insignificantes os progressos até o início do século XX. O impulso foi verdadeiramente desencadeado com a chegada dos primeiros trens, em 1912: de 120 fogos em 1898, passou a cidade a mais de 2.000 casas, em 1919; subiu a receita municipal de 100.000$000, em 1912, a 320.000$000, em 1917, e 470.000$00, em 1919. Torna-se, então, Rio Preto o centro para o qual convergem as colheitas de uma região imensa…”
No dia 27 de março de 1951, o governador Lucas Nogueira Garcez assinou decreto autorizando a EFA a executar as obras para alargar a bitola da ferrovia, numa audiência em que estiveram presentes o prefeito de Rio Preto, Cenobelino de Barros Serra, o de Taquaritinga, Area Leão, e o diretor da estrada, Osvaldo de Almeida. Em maio de 1951, o vereador Renor Pereira Braga iniciou campanha contra a EFA por ter fechado a rua XV de Novembro, “de forma arbitrária”, ao construir a nova Estação Ferroviária. Em 30 de setembro de 1955, foi inaugurada a bitola larga, com a EFA trazendo para a festa, em Rio Preto, o ministro da Viação e Obras Públicas, Otávio Marcondes Ferraz, o secretário estadual de Viação, Caetano Álvares e o diretor da empresa, Orlando Murgel.
Prosseguindo o plano de extensão, em 1952 os trilhos da EFA chegaram a Rubinéia, antigo Porto Tabuado, e lá ficaram paralisados até 29 de maio de 1989, quando o presidente Fernando Henrique Cardoso inaugurou a ponte rodoferroviária, permitindo à Ferronorte a retomada da extensão da linha rumo a Cuiabá.
Em 1972, a EFA passou a chamar-se Ferrovia Paulista S/A – Fepasa. Recentemente, a estrada foi privatizada e passou a chamar-se Ferroban, dando passagem aos trens de carga da Ferronorte. No final dos anos de 1990, o transporte ferroviário de passageiros foi paralisado. A lentidão da viagem de Rio Preto a São Paulo, entre 10 e 12 horas, e o custo parado e a viagem rápida do transporte rodoviário são os principais argumentos para a paralisação.
Fonte: www.quemfazhistoria.com.br; http://guaiaca.ufpel.edu.br/handle/123456789/2152 – dissertação de André Luiz da Silva, Pelotas/RS. 2013